sábado, 4 de outubro de 2008

Wem ay a reforma ortográfika...

O motivo principal que moveu a reforma ortográfica é a unificação da língua. Vem, a reforma, facilita a comunicação. Já não era sem tempo. Agora, finalmente, vamos poder colocar em dia a correspondência com nossos irmãos de Portugal, Angola, Cabo Verde e São Tome e Príncipe. Tenho certeza de que muita gente não escrevia para os amigos de Lisboa por medo de não ser entendido. Com a reforma, haja selo.

Voltam a existir no nosso alfabeto o K, o Y e o W, injustamente cassados durante tanto tempo. Que alívio, vou poder chamar qualquer Walter sem sentimento de culpa. Willem, meu amigo holandês, está feliz da vida, se sentindo muito mais brasileiro. Sem falar no Wanderley, que está duplamente feliz, e no Washington, da W/Brasil, que anda dando pulos de alegria. Na televisão, vão repassar todos os filmes de Kirk Douglas e do Danny Kaye. Somem alguns acentos, a não ser, é claro, as exceções. Evidentemente, tinham de deixar algumas, senão, não seria regra.

A única coisa que está me preocupando nessa reforma é que o trema vai sumir. O trema, gente. Esses dois pingos tão importantes que todo mundo usa quando escreve. O quê? Há muito tempo que você não usava trema? Que perigo! Sem o trema, o pingüim vira pinguim, o alcagüete vira alcaguete, e , o mais perigoso de tudo: a lingüiça vira linguiça.

Como é que a gente vai comer lingüiça sem o trema? Vai estragar. Você chega ao botequim e grita: - Seu Lourival, me dá um sanduíche de lingüiça. Depois de algum tempo, o dono do botequim, que você conhece há anos, entrega o seu pedido:

- Seu Lourival, esta lingüiça está estragada.
- Como assim?
- Está sem trema.
- A culpa não é minha, é da reforma.
- Não interessa. Eu não vou comer uma lingüiça sem trema. Vai me fazer mal.
- O senhor pode comer tranqüilo.
- Não posso, porque tranqüilo também não tem mais trema. Vou ter de deixar de freqüentar o seu botequim, uma vez que a sua freqüência não é mais a mesma.
- O senhor acha?
Claro, a sua freqüência não tem mais trema.
- Bom, então, suspende a lingüiça?
- Evidente, seu Lourival. Eu sou um homem de princípios. Sempre comi lingüiça com trema, não vou passar a comer sem trema.
Eu lá tenho cara de quem come “linguiça”? – você pergunta, indignado, pronunciando “gui” em vez de “güi”.
- Assim, eu não agüento.
- Não agüenta com trema ou sem trema?

Por isso eu imploro, senhores da reforma: cuidem do trema, ou correremos o risco de ver toda a população de língua portuguesa trocando a lingüiça pela salsicha.

(Jô Soares)

Um comentário:

Gustavo Giudicelli disse...

Hheheehhe... Grande Jo Soares :p